21/08/09

Guta Moura Guedes: "O design é muito mais do que os objectos"

"A ExperimentaDesign está a fazer um workshop com a Gulbenkian muito focado no envelhecimento. Que projecto é este?
É um projecto muito desafiador feito com a Emily Campbell, membro do Think Tank da Experimenta e ex-directora do Design Department do British Council. A Emily saiu da direcção do British Council para a direcção do RSA (Royal Society for the Encouragement of Arts), que é uma das sociedades inglesas mais antigas do mundo e tem um grande foco de acção social. Reuni-me com ela em Londres e este projecto, que é interessantíssimo, centra-se na questão do design numa perspectiva das pessoas mais velhas, do isolamento e da possibilidade de ficarem fora do contexto mais rapidamente.

De que tipo de design estamos a falar?
Não estamos a falar de objectos, necessariamente. O briefing foi feito aos designers no sentido de desenharem sistemas inclusivos para ajudarem as pessoas de idade. O projecto desenvolve-se em três fases: uma já aconteceu no Reino Unido, com os estudantes e os projectos ingleses; outra aconteceu há menos de um mês e tivemos seis estudantes dirigidos por duas designers seniores, a Rita Felipe e a Susana António, que visitaram associações dedicadas ao envelhecimento. Agora esses estudantes estão a trabalhar para produzir novos objectos e sistemas para os idosos. A terceira fase reúne estudantes ingleses e portugueses em Lisboa, a trabalharem no bairro da Graça, durante a semana inaugural da EXD09, e termina com uma apresentação.

Sistemas de que tipo e com que vocação?
Sistemas de aprendizagem, network social, serviços, enfim - o design é muito mais do que os objectos.

Sentes que por vezes a discussão sobre o design pode ser tão sofisticada e conceptual que se torna demasiado abstracta para as pessoas comuns?
O design é uma matriz de projecto, que se ocupa da leitura de um contexto e o faz em múltiplas dimensões para depois desenhar soluções. A ideia de melhorar a realidade e tornar a vida mais feliz é uma das bases do design, mas isso não significa necessariamente desenhar apenas objectos. Pode ser redesenhar a sala de espera de um hospital para que as pessoas se sintam mais confortáveis, ou desenhar sistemas de comunicação na internet...

A componente relacional e comportamental está cada vez mais associada ao design?
Sim, aliás sempre esteve.

Eu diria que era uma corrente marcadamente estética...
Agora percebemos que se um objecto é funcional é porque tem uma raiz comportamental, uma ligação com o contexto e, acima de tudo, uma relação com as pessoas. Esta dimensão sempre existiu, mas não estava muito explorada. Os designers agora trazem isso ao de cima, pondo a estética a par da economia, da funcionalidade, da ecologia e da sustentabilidade. Todos esses layers do século 21 estão presentes não só em quem exerce esta disciplina, mas no próprio público, que passou a exigir porque já tem critérios elevados.

Para ti, que criaste a Experimenta, é um orgulho estar nesta vanguarda?
A Experimenta Design tem uma raiz absolutamente portuguesa, mas é uma plataforma internacional que já antecipou muitas tendências. A acção prospectiva que tem como plataforma aberta, com linhas de trabalho muito definidas, foi muito, muito inovadora, e continua a ser. Em Milão, este ano, perante os alunos da Design Academy Eindhoven, uma das melhores escolas de Design do mundo, a filosofia que apresentei sobre a raiz da Experimenta e a forma como nós trabalhamos ainda foi uma novidade, uma surpresa.

O Design tem potencial para ser uma disciplina curricular?
Se fosse primeira-ministra deste país havia pelo menos três disciplinas obrigatórias desde o princípio: a Comunicação, num contexto de expressão (aprender a discutir ideias, a utilizar a palavra, a construir o pensamento), o Inglês, que é o Esperanto do século 21, e o Design, porque não há disciplina que utilize melhor a flexibilidade que cada um de nós tem. Vivemos tempos de alterações aceleradas e imprevisíveis. Precisamos de saber, individualmente, acompanhar todas as mudanças.

A Sophia de Mello Breyner dizia que vivemos num tempo em que sabemos mais do que percebemos, no sentido de não termos tempo para processar tanta informação...
Exactamente. Isso vai causar-nos imensas entropias e vai ser muito difícil gerir tudo isto, embora acredite que fomos desenhados para sobreviver. O design é a mais abrangente e flexível de todas as disciplinas de projecto, perfeita para lidar com toda esta aceleração.

É o patamar sobre o qual tudo se improvisa?
Flexibilidade significa flexibilidade cognitiva, que é a capacidade que temos de reformular um núcleo de conhecimento que aprendemos num determinado contexto para o utilizarmos num contexto diferente. Esta é uma das características mais fascinantes do cérebro humano e também está na base do design. Flexibilidade é uma palavra-chave para o século 21 e o design é, por natureza e definição, muito flexível.

Muito evolutivo, também...
Muito. Lida muito bem com o tempo. Os designers estão treinados para agir rapidamente perante um desafio e para fazerem uma leitura abrangente e transversal da realidade. A noção de tempo de um arquitecto relativamente à duração de uma obra, por exemplo, não é a dos designers. Os designers estão habituadíssimos a desenhar uma coisa que no dia a seguir pode não existir. Essa facilidade da relação com o tempo implica uma flexibilidade de espírito, de construção mental e de resposta, muito importantes neste século.

Passando ao concreto e aos objectos de design do dia-a-dia, que vão dos computadores aos bules de chá, não achas que aqueles bules de metal que existem em quase todos os cafés e invariavelmente entornam são um erro de design?
Completamente!

Com tantos designers tão flexíveis porque é que ainda ninguém resolveu isso?
O mundo está cheio de maus objectos, que foram mal desenhados.

Porque não são rapidamente substituídos por bons objectos?
Por razões de mercado, por razões económicas, por tradição ou simplesmente por acomodação.

Dá-me outros exemplos de maus objectos de design.
Todas as cadeiras desconfortáveis. Quantos de nós não fomos já a um concerto e nos sentámos numa cadeira lindíssima e passada meia hora doíam-nos as costas, não havia posição para as pernas... Para mim, isto é impensável. Todas as peças em áreas de serviço público, toda a comunicação no espaço urbano, toda a sinalética, são intervenções que interferem no nosso dia-a-dia sem darmos por isso e é essencial rever o seu design. O que mais me espanta é a falta de comunicação entre o consumidor, o designer e o produtor, porque qualquer de nós poderia dizer três ou quatro coisas em relação ao seu carro, por exemplo, que fariam da série seguinte de carros de cada marca uma série muito melhor.

É como se houvesse uma competição entre designers... Muitas vezes a sensação que o cidadão comum tem é que os designers trabalham para designers, os arquitectos para arquitectos...
Não posso dizer que não haja isso, mas também podemos acrescentar aí as empresas, porque os designers sempre foram muito mais condicionados pelas empresas do que pela criatividade. O que é interessante no século 21 é que, com a globalização, temos muito mais designers a conseguir furar esse sistema que era definido pelas grandes empresas e a conseguir pôr os seus produtos no mercado mais facilmente. Isso é bom para todos nós, porque quanto mais gente houver a pensar de forma funcional e ligada às pessoas, melhor.

A pensar de forma prática e funcional como os designers do IKEA?
A filosofia do IKEA é mais importante que os designers deles, que são tão bons como outros quaisquer. Aí é que se vê a importância de uma empresa e esta é um bom exemplo pela forma como se posiciona perto do consumidor e tenta sempre perceber as suas necessidades e antecipá-las. É uma atitude inteligente.

A tendência é massificar ou personalizar os objectos?
Cada vez vamos ter mais objectos customizados de acordo com o consumidor, que vai decidir como quer cada peça em função da sua casa e da sua vida. É ele que vai dizer: falta-me isto, gosto daquilo ou preciso das coisas desta ou daquela maneira. A tendência vai ser o consumidor acabar o produto à sua medida, e este conceito, além de ser muito interessante, já é possível no nosso século.

Isso é estar muito à frente...
É, de facto. Vamos ter sempre duas linhas: a linha de produção em massa, neutra e igual para todos, mas ao mesmo tempo, e cada vez mais acessíveis, peças que antes eram só para uma elite e têm a ver com esta ideia da personalização e de poderem ser customizadas de acordo com aquilo que cada um precisa. E não só, pois associadas a esta atitude também vêm outras ideias, como a reciclagem e a reutilização dos objectos. Em África muitos povos reutilizam os objectos de uma maneira absolutamente fascinante. Utilizam as câmaras de ar como reservatórios de água; juntam os próprios pneus e constroem pro- tecções em túnel para poderem dormir. Nós perdemos toda esta capacidade de reutilização própria de contextos de sobrevivência.

Somos uma sociedade de desperdício?
Somos, mas isso vai ter de se inverter, até porque todos nós já percebemos que não é uma atitude sustentável.

A crise acaba por ser uma boa oportunidade para acabar com este novo-riquismo das sociedades desenvolvidas?
Sim, nesse sentido a crise é boa. A crise só é muito má porque é altamente injusta e para muitos muito dramática. Se assim não fosse, seria uma boa oportunidade de transformação. Se em vez de acentuar assimetrias fosse só uma possibilidade de criar novas oportunidades, seria óptima.

Como é a tua relação com os objectos e como é que os usas no dia-a-dia?
Não ligo nada a objectos, zero!

O design não interfere na tua vida?
Só na medida em que tudo o que temos e usamos é desenhado.

Mas és uma pessoa muito gráfica, a tua imagem é muito cuidada...
Isso é porque vejo a roupa e os objectos como prolongamentos da personalidade.

Como te defines?
Não sei... Costumo dizer que sou 50% razão e 50% emoção.

Parece um bom equilíbrio.
Mas é tramado, porque tenho as duas em tensão com forças iguais. Quando somos mais razão ou mais coração há um let go... Quanto à imagem, este lado mais gráfico ou mais performativo tem mesmo a ver com o facto de eu achar que os objectos que temos e aquilo que usamos são prolongamentos nossos. Não comunicamos só com palavras, também comunicamos com o corpo, com a roupa que usamos e com a forma como a usamos.

O que é que não usas porque não gostas, ou porque diria de ti qualquer coisa que não queres que diga?
[Pausa] Não uso folhos - o que não quer dizer que não venha a usar.

Nem sequer na intimidade?
[Risos] Eu sou muito, muito flexível. Há uma frase do Montaigne fabulosa: ele diz que há mais distância entre nós e nós próprios do que entre nós e os outros. Acho esta perspectiva maravilhosa. Tenho a certeza que há mais distância entre mim e eu mesma que entre mim e os outros.

A tua imagem também evoluiu com a Experimenta?
Não. O que acontece é que, passados dez anos, temos muito mais segurança, mais experiência, sabemos muito mais, e isso nota-se. Do ponto de vista da minha relação com os objectos estou exactamente igual. Não ligo muito a objectos. Os meus objectos são um iPhone, livros (que nem sequer consigo chamar objectos) e CD...

Pintas o cabelo?
80% dos meus cabelos são brancos!

Gostas de ter 44 anos?
Adoro.

Vives bem com a passagem do tempo?
Vivo, mas não me apetece nada ficar menos capaz.

E menos bonita?
Não, só me assusta a ideia da redução da capacidade. Estive quatro anos sem fazer exercício físico e o que me levou outra vez ao ginásio foi sentir que de repente não tinha força. Os meus músculos estavam a enfraquecer e chateou-me começar a pedir aos meus filhos que carregassem coisas. Estava a sentir a elasticidade e a força reduzidas. Isso não apetece nada.

Usas fato de banho ou biquíni?
Biquíni, sempre.

Fazes toilettes para a praia?
Não tenho paciência para isso. Vou para a Praia Verde e durante 15 dias uso praticamente sempre o mesmo biquíni, as mesmas chinelinhas e tenho um vestido com que vou à praça de manhã. É um vestido verde e branco de quadradinhos que é o vestido da praça [risos], depois tenho um pano que enrolo à cintura e com que ando 90 % do tempo.

És prática, flexível e adaptável, portanto...
[risos] Completamente! O meu trabalho obriga-me a vestir-me bem e gosto dessa construção, mas confesso que também pode ser uma construção cansativa. Nunca conseguiria viver na mesma construção, preciso dos opostos.

O que te seduz nas pessoas?
Praticamente tudo, mas em especial seduz--me a inteligência, sem dúvida.

É uma característica feminina deixar-se seduzir pela inteligência... E mais o quê?
Definitivamente os olhos, seja em homens ou em mulheres. A atitude, para mim, também é muito importante. Não gosto de pessoas fracas.

E num homem, o que mais te seduz?
As coisas do costume: a inteligência, a capacidade de ser doce e afectuoso - o que para mim é importantíssimo -, inspirador e visionário. Alguém que me mostre o que eu não sei, acima de tudo. Atraem-me relações onde há territórios comuns, mas preciso de alguém que me leve onde não sei ir sozinha.

És uma pessoa feliz?
Acho que sim. Muitas vezes digo aos meus filhos que sou feliz por existir. Só o facto de estar viva já me enche de felicidade. Acho um privilégio estar aqui, agora. Como não viver feliz com isso? Depois, o resto, tem altos e baixos.

Finalmente: o que achas que em ti é sedutor para os outros?
Acho que é a percepção de uma certa energia que eu tenho. E também o facto de não ter praticamente nenhum preconceito. Sou sempre igual, seja com quem for, porque me interessa tanto o branco como o preto, o amarelo como o azul, o alto como o baixo, o vazio, o cheio. Tudo me interessa da mesma maneira. "

entrevista dada por Guta Mour Guedes para o Ionline por Laurinda Alves

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